- Foi aqui que encontraste a miúda dos cabelos cor de laranja Fritz? – perguntou o Jack, de repente com os olhos translúcidos, lembrando-se do seu grande amor.
- Sim, ela costumava andar por aí.
- Mesmo no meio de tanto fantasma, consegues pensar na miúda ó Joca. Essa irlandesa devia ter porras – disse o Azevedo sorridente. Às tantas, furando a direito pela multidão de fantasmas, passaram pelo revisor.
- Podemos entrar? – perguntou o Fritz.
- Têm bilhete?
- Não.
- Se não têm bilhete, não vos posso ajudar. Agora rapazinho dá-me licença. Passageiros de primeira classe por aqui! Por aqui por favor!”
- Não se lembra de mim? – insistiu o Fritz ante a parcimónia.
- E devia lembrar-me de ti?
- Sou o Fritz! Costumava dormir aqui na estação! Ao pé da máquina de cacau!” – e o revisor fixou, altivo, as feições do pequeno. Finalmente pareceu reconhecê-lo.
- Costumavas andar por aí com um cão não era?
- Sim era eu, e a Snarky! Podias fingir que não nos vias e deixar-nos entrar!
- Aqui só passageiros com bilhete válido. Faz favor senhor presidente da câmara faz favor de entrar. – O comboio CP 135 fazia nuvens brancas no redondo da ocasião.
- Quem são estes senhores? – perguntou o Fritz atabalhoadamente.
- São as pessoas mais importantes do Entroncamento, vão todas em primeira classe.
- Mas eu conheço aqueles que estão sentados ao pé da janela. São os drogados da zona verde! Eles também vão em primeira classe?
- A carruagem de primeira classe não é só para o que as pessoas foram em Vida. Mas também para o que podiam ter sido.
O Fritz reparou que os drogados eram os únicos passageiros de primeira classe com ar descontraído. Todos os outros estavam apreensivos. Iam fumando cigarros enrolados, como se o mundo não acabasse naquele dia. Insistiam numa baforada com o presidente da câmara, que recusava sempre educadamente do cimo do seu bigode. À falta de mortalhas, muitos deles fumavam já os próprios bilhetes de embarque, despreocupados com o pica, que pica não pica, lhes iria pedir contas à vida e à carteira. Não os incomodava o destino incerto, incalculável, desconhecido para todos os passageiros. Partilhavam cigarros papéis de prata, colheres e chocolates. Mas não partilhavam dúvidas.
- A que horas parte o comboio? – apressou-se o Fritz.
- Exactamente à meia noite.
- Ainda podemos ir comprar bilhetes?
- A Senhora do Guichet também vai embarcar. –e o revisor apontou para umas carruagens mais ao fundo, onde uma rubicunda forçava sacos de fazenda degraus acima, pedindo braços e boa vontade. – Além disso pequenote, este comboio é só para Entroncamentenses.
- Mas eu sou do Entroncamento!
- Foste do Entroncamento! Depois foste-te embora! Durante anos ninguém te viu!
- Mas eu estive este tempo todo a tentar regressar!
- Quem se vai embora do Entroncamento, nunca mais é do Entroncamento.
E com esta sentença de morte, o revisor desdobrou a porta cinicamente que se fechou num esticão. Ouviu-se um apito. Uma sirene de vapor roçou as esquinas dos edifícios gastos da estação, e o comboio fantasma, ia partir enfim num chuf chuf carregado.
Nele ia toda a população que vivera e morrera no entroncamento desde o tempo em que o Largo das Vaginhas, a Pão e Erva, era apenas um pântano. O comboio fantasma hesitou primeiro, tomando balanço, mas depois ganho velocidade. Foi andando, andando, andando, até que despegou as grandes rodas de ferro dos carris e foi subindo no céu, recortando a lua com as suas engrenagens, até ficar um ponto cada vez mais pequenino à medida da distância que aumentava, e depois, desapareceu finalmente como uma estrela morta de saudade.
Na Estação ficaram apenas os três viajantes. O Jack reparou num molho de jornais de Notícias do Entroncamento, ainda dentro de cordel. Várias edições que ali tinham ficado por vender, encostadas a um letreiro. Preparava-se para as examinar, quando foi interrompido por uma voz envergonhada, de timbre desconhecido.
- Sabem se há comboios aqui para Lisboa? – perguntou o desconhecido, de coluna ligeiramente corcunda, como que a pedir desculpa das nódoas na camisa.
- Não este foi o último comboio.
- E a que horas é que há comboios agora?
- Não este foi mesmo o último comboio de todos. Já não há mais comboios no Entroncamento.
- Está a brincar comigo não?
- Não infelizmente não. Como pode ver, a estação está deserta, e as luzes apagadas.
- Ó diabo! Que se terá passado? E agora? - interrogou o desconhecido.
- Agora vamos a pé até Lisboa. – riu-se o Azevedo.
- Já agora, por acaso não viram por aí uma miúda muito bonita, de cabelos cor de laranja? Ela costumava sentar-se nos bancos aqui da estação, e eu na verdade, vinha aqui à procura dela. – perguntou o desconhecido, a um Jack desorientado pela coincidência da côr dos cabelos da mulher amada.
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